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Vivendo e aprendendo. O segundo turno da eleição presidencial mostrou mais uma vez que em política os fatos atropelam a todo momento as previsões de estudiosos, analistas e pesquisadores. Ninguém conseguiu prever que, para Lula, o segundo turno ao invés de limão se tornasse limonada.
A vitória de Lula não foi surpresa. O modo como ocorreu, sim. Lula obteve no primeiro turno 46,6 milhões de votos e no segundo turno 58,2 milhões. Ou seja: fez quase 12 milhões de votos a mais. Em contraposição, Alckmin, que tinha conseguido 39,9 milhões de votos no primeiro turno, reduziu sua votação em mais de 2 milhões, ficando com 37,5 milhões de votos. Uma vitória arrasadora de Lula, com uma diferença superior a 20 milhões de votos.
A vitória foi tão incontestável que abafou de vez as tentativas golpistas que setores do PFL, PSDB, da grande mídia (especialmente a revista Veja) e de outros grupos conservadores vinham alimentando. Deixa o homem trabalhar! foi o recado das urnas, em alto e bom som. Ao que tudo indica, esses setores entenderam o recado e farão uma oposição dentro das regras do jogo democrático.
Como explicar essa vitória contundente no contexto de tantas dificuldades para o presidente? Pretendo indicar uma explicação apoiada nos estudos da Ciência Política, indicando as duas teorias do voto mais relevantes.
A teoria da escolha racional (rational choice) argumenta que o voto é fundamentalmente o resultado de um cálculo que o eleitor faz no sentido de averiguar qual candidato/partido melhor defende os seus interesses (do eleitor). Sob esse ponto de vista, a interpretação que se pode fazer é que maioria do povo votou em Lula porque avaliou que sua vida melhorou durante os quatro anos do seu primeiro mandato. O cálculo foi: se minha vida melhorou (em termos de salário, renda, inflação, programas sociais) no primeiro governo, é bem provável que as melhorias continuem no segundo governo, e por isso vou votar na continuidade.
Outra teoria relevante é a do voto emotivo, que defende a idéia de que a maior parte dos eleitores vota sob o impulso de fatores emocionais. Essa teoria parte da constatação de que maior parte dos eleitores não tem familiaridade com a política, não acompanha cotidianamente as notícias sobre a política, não domina o linguajar político e não consegue entender as complexidades dos enfrentamentos entre os partidos. Na hora do voto, esses eleitores baseiam sua decisão na percepção que têm dos candidatos a partir dos meios de comunicação, especialmente a TV, sendo que o marketing eleitoral joga papel decisivo. O eleitor vota no candidato pelo qual “sente” mais empatia e confiança. Por esse viés interpretativo, a vitória de Lula é uma vitória do seu marketing, que o tornou mais confiável, crível e empático do que seu adversário.
Essas teorias não são excludentes entre si, nem excluem outros fatores, como as alianças partidárias. Em síntese, a explicação é esta: na hora do voto, pesa o cálculo que o eleitor faz, mas pesam também os fatores emocionais. Lula foi eleito porque a maioria do povo está convicta de que o seu primeiro governo melhorou a sua vida e também porque o seu marketing eleitoral foi melhor, passando ao eleitor mais credibilidade, confiança e empatia. A razão e a emoção do povo mantêm Lula no Planalto.
João Pedro Schmidt/Professor
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