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Ano 65 - sábado e domingo, 07 e 08 de novembro de 2009
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Guido Kuhn | guidoekuhn@yahoo.com.br
Nossos heróis e modelos
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Choveu 40 dias e 40 noites, mas a arca navegou 150 dias. Pousou no Monte Ararat, com a iniquidade varrida da face da terra, pelo menos por uns tempos. Findo o dilúvio, Deus chamou Noé e seus filhos Sem, Cam e Jafeth, e lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra”. A partir daí, a Bíblia é uma grande genealogia. Sabe-se até hoje a linhagem de Abraão, de Isaac, de Jacó, de José, de Moisés, de Davi e de toda essa gente que o escritor sacro enumera, até Jesus Cristo. Através dos tempos, a extensão da família pelo estudo genealógico tornou-se uma prática comum entre os povos, estreitando vínculos entre as pessoas da mesma linhagem e transmitindo importantes legados aos descendentes.

***

Claro que nem todos são santos, mas venerar antepassados sempre é melhor que adorar ídolos de pano, como se faz muito hoje em dia com celebridades que dão maus exemplos. Mesmo havendo uma onda contrária, interessada em apagar ou reescrever a história, ainda há espaço para o estudo das linhagens, seja por razões sentimentais, seja por mera curiosidade. Sem essas reconstituições, nenhum de nós saberia donde veio. As festas de família, cada vez mais frequentes, representam um saudável desdobramento dessa prática, que atiça a curiosidade geral, especialmente a dos que já alcançaram o estágio de vida em que começam a olhar também no espelho retrovisor. Ao contrário do que alguns pensam, não há nenhum mal em orgulhar-se da própria linhagem, com suas virtudes e seus defeitos.

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Para a Oktoberfest deste ano, no seu jubileu de prata, apareceu um concurso que desafiou os alunos das escolas estaduais a fazerem a própria árvore genealógica, recuperando cada qual a noção das suas origens. Colheu-se, assim, um interessante e importante manancial de informações. Elaborar o mapa humano do tempo, que cada qual monta com as próprias cores, deve ser uma coisa excitante para esses jovens pesquisadores. Claro que isso não deve servir de constrangimento para os que pouco ou nada sabem da própria história. Mas talvez seja a primeira luz sobre a sua realidade pregressa, e um caminho para conhecê-la melhor. Quem é que não tem pais e avós? É só falar com eles.

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Sempre achei que “honrar pai e mãe”, como diz o quarto mandamento, significasse também venerar os ancestrais mais distantes, pais dos nossos pais, dos avós e bisavós. É desses ascendentes que herdamos os nossos valores, por isso os vemos como heróis e modelos. Agora, assusta-me a visão canhestra de que a idéia de genealogia não faz mais sentido, por implicar em percepções racialistas, um orgulho de linhagem com ares de preconceito, por não haver árvore genealógica que aponte para os pecados do clã ou para dentro das prisões. Só falta, ainda, alguém defender a tese de que não devemos mais saber quem são os nossos pais. Aí teríamos a população carcerária explodindo de vez.

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As prisões estão cheias de gente que nasceu e cresceu na ausência paterna, sem genealogia e sem suporte familiar. E as casas geriátricas se multiplicam, habitadas por pais que, muitas vezes, até querem estar lá, porque os filhos não sabem mais valorizá-los, o que é triste. É isso que queremos? Só faltava essa, impedir que os povos cultivem suas referências familiares. Nada como a proximidade da família e o seu conselho, para prevenir o vício e induzir a virtude. Ou isso não interessa? É até curioso o fato de as pessoas serem cada vez menos conhecidas pelo nome de família. É preciso ter muito cuidado com os novos tempos. Se é na família que se baseia a genealogia, ou se combate a família, ou não se entende esse discurso iconoclasta contra os valores que sustentam a humanidade há milênios.

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Um clã unido, com homogêneas referências básicas e uma estrutura coletiva sólida, tem um notável poder de construção, em que a força do conjunto inibe as fraquezas pessoais. Se não for assim, a educação não faz sentido e imagino que o papel de mamãe foi de apenas me parir, me evacuar e logo cair fora, como a galinha põe o ovo e vai embora cacarejando. Antes, tudo acontecia na família e na comunidade. Hoje, nada mais interessa fora do individual, egoísmo que quer tudo para si e chega a destruir a construção coletiva, demonizada como preconceituosa e contrária às liberdades. Os grupos sociais têm cada vez mais a cara de boiadas que se embretam e derrubam cercas. Há muito que somos governados por minorias que impõem leis e controlam governos, ante o silêncio estupefato da maioria omissa. Ninguém mais pinta a cara. Quem o fazia, agora se locupleta nas tetas do governo.



* Jornalista

  
 
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