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Sem comprovar se, efetivamente, “todos os brasileiros são apaixonados por carros”, como diz uma propaganda, parece mais aceitável que o carro zero ou, simplesmente, o carro próprio, por mais antigo e ultrapassado que seja, é o sonho de muita gente. Mesmo quem passou parte de sua vida sem carro, dependendo de ônibus ou de caronas, quando tem o seu próprio veículo, pergunta-se como sobreviveu sem ele.
Muitas pessoas, erroneamente, consideram a compra de um carro como um investimento. Vendedores apelam para o argumento de que “se a pessoa pretende investir um pouco mais, tem este modelo... um pouco mais caro”. Partindo do princípio do escritor e palestrante Robert Kiyosaki, da série de livros Pai rico, Pai pobre, de que tudo o que nos faz gastar dinheiro é passivo, o que inclui a moradia própria, o carro é, por excelência, um gerador de despesas. Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que, na relação de gastos familiares, ter um automóvel na garagem é como ter um filho a mais em casa. Além de ser de mau gosto isso não é bem verdade: facilmente, o carro pode custar bem mais caro que um filho. Gasta-se com a aquisição do veículo, eventualmente acrescido de juros de financiamento e outras despesas, mesmo quando efetuado através de consórcio; do IPVA, do combustível, da manutenção, do estacionamento, do seguro total, além de um custo que, geralmente, não é levado em conta, mesmo com todos os cuidados de manutenção, previstos no manual, e que é percebido no momento da revenda: a desvalorização do veículo.
Para algumas pessoas ou empresas, a compra do carro é investimento, mesmo: os revendedores de carros; os taxistas que, embora tenham as mesmas despesas de um proprietário comum, geram renda com o automóvel; os carros de coleção ou superesportivos e exclusivos que, pelo fato de serem únicos, têm valores exorbitantes e podem não sofrer a desvalorização verificada em outros modelos. No caso de colecionadores, entretanto, há o risco da falta de liquidez e lucratividade incerta. O carro pode valer muito, mas não despertar o interesse de outras pessoas, valendo mais como um hobby de seu proprietário.
O tão sonhado carro, que não precisa ser necessariamente novo, pode se transformar em dor de cabeça, quando a única alternativa passa a ser desfazer-se dele. O consumidor precisa ter cuidado e avaliar os impactos no bolso antes de assumir compromissos financeiros. É o preço da paciência que muitas vezes desconhecemos. Esperar para comprar um carro, fazendo um investimento adequado, pode compensar mais do que entrar em um financiamento. Um carro de R$ 50 mil, por exemplo, financiado em 5 anos, com taxas de juros mensais de 1,50% e prestações de R$ 1.269,67, custará, no final, R$ 76.180,28. Se o comprador esperar e aplicar essa mesma parcela num investimento conservador, que renda 0,6% ao mês, em 38 meses terá um valor de R$ 51.024,18, suficiente para comprar o carro à vista e ainda negociar um desconto. Se o comprador continuar seu investimento até completar os 5 anos, compraria o seu carro de R$ 50 mil e ainda teria uma reserva de quase R$ 30 mil. Caso não seja possível efetuar a compra à vista, antes de usar um financiamento normal, é recomendável analisar outras opções de pagamento, um pouco mais baratas: o consórcio (estar preparado para um tempo de espera); o Crédito Direto ao Consumidor; o leasing: no fim do contrato, o consumidor deve decidir se compra o veículo pelo valor previamente contratado, se renova o contrato por um novo prazo ou se o devolve ao arrendador; leilão: possibilidade de comprar o veículo com valores abaixo do mercado, com algumas “armadilhas”: não tem garantia, o pagamento é à vista e arcar com todas as despesas referentes à documento, transferências e possíveis débitos como IPVA e multas do ano.
Segundo a psicologia econômica, a emoção está presente em todos os processos de decisão, mesmo quando, aparentemente, trata-se apenas de lidar com números, e é impossível não se deixar influenciar por ela na hora de fazer uma escolha, como a compra de um carro, por exemplo. Com juros ainda altos, os prazos maiores permitem parcelas menores. Na hora da compra, as pessoas levam em conta apenas o valor da prestação, ignorando ou não se importando com os juros embutidos. De qualquer modo, depois de ter decidido adquirir o automóvel, vale a pena em 1) controlar a ansiedade: evita erros; 2) lembrar-se do que está procurando: o que precisa e pode comprar, não o que o vendedor sugere; 3) pesquisar; 4) examinar a melhor forma de pagamento; 5) comparar a compra de um carro usado, mas equipado, ou um novo básico: o carro usado tem baixa depreciação, mas os gastos ao longo do uso poderão ser maiores.
Ter um carro é bom, confortável, necessário. Independente de como ele seja, o importante é não vincular nossa felicidade, nosso sentimento de realização pessoal, nossa auto-estima, etc, nesse bem. Muito menos, fazer dele um instrumento de superioridade. À medida que depositamos nossa felicidade em coisas, mesmo que seja um belíssimo carro, logo descobriremos que essas coisas não vão nos satisfazer e, se o fizerem, será por pouco tempo. Afinal, o cheirinho de carro novo passa ligeiro.
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