O terreiro onde o pai-de-santo Júlio César Bonato realiza sessões de Quimbanda impressiona quem nunca teve contato com essa religião. Trata-se de uma sala ampla, com paredes pintadas de vermelho e estantes onde podem ser vistas caveiras de porcelana e estatuetas que representam entidades da crença. Uma das maiores estátuas mostra um homem de cavanhaque, com trajes vermelhos e segurando um tridente. É o Exu Caveira, ser pelo qual Bonato afirma ser incorporado.
Foi nesse terreiro que o pai-de-santo concedeu, ontem, uma entrevista cujo tema foram as acusações de homicídio que recaem sobre ele. Bonato, 40 anos, é apontado pela Polícia Civil como assassino do pastor Francisco de Paula Cunha de Miranda, 47, esfaqueado em 20 de dezembro na Rua Conde D’Eu, Bairro Aviação, em Venâncio Aires. O corpo foi encontrado nas proximidades do terreiro de Bonato, onde ocorria uma sessão quando houve o homicídio.
De acordo com pessoas que assistiam ao ritual, o pastor teria surgido na frente do terreiro e gritado palavras contra os frequentadores, tais como “fora satanás” e “queimem a casa de satanás”. Conforme essas testemunhas, Bonato – supostamente já “incorporado” pelo Exu Caveira – ordenou que todos o esperassem, saiu do terreiro em direção a Miranda e voltou instantes depois, reiniciando a sessão. Ninguém viu o que ocorreu no lado de fora e o acusado alega não lembrar de nada, justamente devido à incorporação.
Conforme a polícia, em depoimento o pai-de-santo não descartou a possibilidade “do exu ter sido autor do crime”. Os investigadores encaminharam à perícia facas apreendidas no terreiro e usadas no sacrifício de galinhas. O objetivo é verificar a presença de sangue humano. Não há previsão de quando chegam os laudos, mas o delegado Paulo César Schirrmann pretende indiciar Bonato na próxima semana. “Há provas suficientes apontando a participação do pai-de-santo. A partir dos dados já colhidos, tenho convicção de sua autoria”, ressalta Schirrmann.
Mas a possibilidade de enfrentar o Tribunal do Júri parece não abalar Bonato. Durante a entrevista de ontem, ele demonstrou tranquilidade e garantiu não saber o que ocorreu na sessão de 20 de dezembro, durante o período em que estaria incorporado. Disse também não acreditar que o Exu Caveira seria capaz de matar, sugerindo assim a busca por outro suspeito. Confira:
Gazeta do Sul – O que o senhor lembra da noite de 20 de dezembro?
Júlio César Bonato – Comecei a sessão por volta das 20h20. A partir daí, só lembro de ter desincorporado às 2h30 da madrugada. Como estava incorporado, não sei o que houve no período. Posso dizer que eu não fiz nada, pois quem age por meio de meu corpo nesses momentos é o exu. Veja estas marcas (mostrando queimaduras provocadas por charutos acesos nos braços). Quando o exu nota que alguém está desconfiado, imaginando que o pai-de-santo está fingindo, ele queima o braço com o charuto, sem mostrar reação a dor. Se a polícia quiser, posso incorporar Exu Caveira, para que ele seja ouvido.
Gazeta – Após a sessão, qual foi sua reação ao saber do ocorrido?
Bonato – Comentaram apenas que um homem havia gritado coisas aqui na frente. Mas não prestei muita atenção a isso, não liguei para os comentários. Tenho convicção de que todos temos um mesmo Deus, mas com nomes diferentes, e que minha casa não é a casa de satanás.
Gazeta – O senhor conhecia o pastor Miranda?
Bonato – Vi ele pela primeira vez na foto do jornal, na reportagem sobre sua morte.
Gazeta – A palavra caveira, ao leigo, muitas vezes remete à morte ou à maldade. Na Quimbanda o Exu Caveira é considerado uma entidade má?
Bonato – Não. Ele ajuda as pessoas, é uma espécie de guardião. Ele ensina as pessoas a se defenderem, não de forma violenta, mas no campo espiritual. É subordinado a Onolulu, equivalente ao São Lázaro do Catolicismo (segundo a Bíblia, Lázaro era amigo de Jesus e foi ressuscitado por ele).
Gazeta – Acredita que o exu, se irritado ou ofendido, poderia agredir e matar?
Bonato – Os exus não matam pessoas. Sacrificam galinhas ou cabras, mas não serem humanos. Como eu o incorporo, não tenho como saber como é a personalidade de Exu Caveira. Mas as pessoas que participam das sessões aqui o descrevem como bastante educado e bondoso.
Gazeta – Diante disso, acredita que o exu, “incorporado” no senhor, poderia ter assassinado o pastor?
Bonato – Creio que não. Aliás, o fato de Exu Caveira ter saído não significa que tenha assassinado alguém. Ele pode simplesmente ter depositado uma oferenda em algum lugar.
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E agora?
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Segundo o delegado Paulo Schirrmann, mesmo com a alegação de que estaria incorporado, o pai-de-santo responderá pelo assassinato. “A lei não prevê a atribuição de crimes a entidades e isso também não serve como atenuante”, ressalta. Schirrmann não descarta, no entanto, que a defesa de Bonato venha a explorar a questão no Tribunal, para impressionar os jurados.
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A vítima
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Porto-alegrense e ex-jogador de futebol, o pastor Francisco de Paula Cunha de Miranda morava há quatro anos em Venâncio, onde fundou a Igreja Ministério de Fogo para as Nações. Antes, viveu em Caxias do Sul. Desde o ano 2000 integrava uma rede apostólica, onde teria obtido inspiração para criar sua igreja. Deixou esposa e três filhas.
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O suspeito
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Natural de Novo Hamburgo, Júlio César Bonato era mecânico e mudou-se para Venâncio há 18 anos, quando também começou a estudar as religiões afro. Há dez aos é pai-de-santo, com terreiro situado junto à casa onde mora, na Rua Conde D’Eu, Bairro Aviação. A esposa dele pratica a umbanda e o casal tem dois filhos.
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